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EUA e Irã se reúnem no Paquistão em clima de desconfiança para negociar guerra

por Redação

Lideranças de Estados Unidos e Irã estão reunidas na capital paquistanesa, Islamabad, neste sábado (11), para negociações que podem encerrar a guerra de seis semanas travada entre os dois países.

A delegação dos EUA, que é liderada pelo vice-presidente J. D. Vance e inclui o enviado especial do presidente Donald Trump, Steve Witkoff, e o genro do mandatário, Jared Kushner, chegou em dois aviões da Força Aérea dos EUA a uma base aérea em Islamabad na manhã de sábado. Ali, foram recebidos pelo chefe do Exército e pelo ministro das Relações Exteriores do Paquistão.

A delegação iraniana, encabeçada pelo presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, e pelo ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, chegou ainda na sexta-feira (10) com vestes pretas em sinal de luto pela morte do aiatolá Ali Khamenei. Eles carregavam sapatos e bolsas de estudantes mortas durante o bombardeio dos EUA a uma escola próxima a um complexo militar.

“Negociaremos com o dedo no gatilho”, disse Fatemeh Mohajerani, porta-voz do regime iraniano na TV estatal. “Embora estejamos abertos ao diálogo, também estamos plenamente conscientes da falta de confiança. Portanto, a equipe diplomática do Irã está entrando nesse processo com a máxima cautela”.

Enquanto se dirigia ao Paquistão, Vance afirmou esperar um resultado positivo, mas acrescentou: “Se eles tentarem nos enganar, vão descobrir que a equipe de negociação não está muito receptiva”.

O encontro acontece no hotel cinco estrelas Serena, com jardins e arquitetura mourisca, que é um dos edifícios mais fortificados de Islamabad e tem o próprio esquema de segurança. O endereço fica nas proximidades do hotel Marriott, palco de um dos piores ataques terroristas do Paquistão, em 2008, quando um caminhão que carregava 600 kg de explosivos abriu um buraco de sete metros de profundidade e deixou, entre os mortos, o embaixador da República Tcheca.

Islamabad reforçou o esquema de segurança com milhares de agentes na cidade, incluindo tropas paramilitares e do Exército, que montaram postos de controle e bloqueios por toda a capital. Lojas e escritórios foram fechados.

De acordo com o jornal The New York Times, as delegações americanas e iranianas se reuniram separadamente com mediadores paquistaneses, dando início a rodadas que têm o objetivo de pôr fim à guerra no Oriente Médio.

Ainda está incerto se as negociações serão conduzidas frente a frente ou mediadas pelos anfitriões. Nas rodadas do começo do ano, os americanos passavam suas demandas ao chanceler omani, que as repassava aos iranianos, e vice-versa.

No entanto, segundo informações da Al Jazeera, as equipes dos EUA e do Irã estariam em uma mesma sala, com os mediadores paquistaneses também presentes.

O encontro ocorre em um momento de um frágil cessar-fogo, com o Irã afirmando que qualquer acordo teria de incluir suspensão de ataques ao Líbano e fim de sanções. Teerã tem mantido contato com Beirute para garantir que um eventual cessar-fogo seja respeitado em todas as frentes. Israel e EUA afirmam que a situação no Líbano não faz parte do acordo.

Também neste sábado, a emissora estatal iraniana afirmou que a delegação de Teerã apresentou demandas relacionadas ao estreito de Hormuz, à liberação de ativos iranianos bloqueados, ao pagamento de reparações para cobrir danos causados pela guerra e um cessar-fogo que alcance toda a região.

O diálogo será o de maior escalão entre EUA e Irã desde a Revolução Islâmica de 1979. A última vez em que EUA e Irã negociaram olho no olho foi na costura do acordo nuclear de 2015, que trocou o fim de sanções à teocracia por um intrincado esquema de verificações segundo o qual seria restringida a capacidade de enriquecimento de urânio do país por 15 anos, visando coibir a busca pela bomba atômica.

Trump cancelou o acordo nuclear em 2018, durante seu primeiro mandato. Naquele ano, Khamenei proibiu novas conversas diretas entre autoridades dos EUA e do Irã.

Na sexta-feira, o americano publicou nas redes sociais que a única razão pela qual os iranianos ainda estavam vivos era para negociar um acordo. “Os iranianos parecem não perceber que não têm cartas na manga, a não ser a extorquir o mundo por meio de vias navegáveis internacionais. A única razão pela qual eles ainda estão vivos hoje é para negociar!”

Ataques continuam no Líbano

Os ataques no sul do Líbano continuaram na manhã de sábado, de acordo com a mídia estatal libanesa. O Hezbollah anunciou ter realizado diversas operações militares contra posições israelenses no sábado, tanto em território libanês quanto no norte de Israel.

Os governos de Líbano e Israel concordaram em se reunir, na próxima terça-feira (14), para negociações sobre o fim do conflito entre Tel Aviv e o grupo extremista Hezbollah, apoiado pelo Irã, de acordo com o governo libanês. Israel, no entanto, recusa tratar de cessar-fogo com a facção.

Autoridades libanesas próximas ao Hezbollah disseram à agência de notícias Reuters nesta sexta-feira que o grupo apoia o diálogo com o Paquistão, ao contrário de negociações separadas em Washington na próxima semana.

A abertura para conversas entre Beirute e Tel Aviv ocorre em meio a pressão do governo de Donald Trump sobre o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu. Israel aumentou a intensidade de ataques contra o Líbano pouco após o anúncio, na quarta-feira (8), de um cessar-fogo dos EUA contra o Irã, que por sua vez recusa avançar com as negociações enquanto o conflito não cessar também no Líbano.

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