Em entrevista ao CBN Educa+, o ex-presidente da Fundação Palmares destacou a importância de valorizar os verdadeiros heróis em meio ao apagamento da história negra e africana no ensino brasileiro.
Nesta quarta-feira (21), em pleno Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, o programa CBN Educa+ recebeu o professor e economista Erivaldo Oliveira, ex-presidente da Fundação Cultural Palmares, para uma conversa sobre educação antirracista e decolonial. A entrevista foi conduzida pelas apresentadoras Amanda Garcia e Fernanda Cruz.
À frente da Fundação Palmares entre 2016 e 2019, órgão vinculado ao Ministério da Cultura, Erivaldo consolidou uma trajetória marcada pelo ativismo em defesa da valorização e do resgate da história negra, quilombola e indígena no Brasil, povos historicamente marginalizados pela violência do racismo e do apagamento cultural.
Durante a entrevista, o professor relembrou ações importantes desenvolvidas no período em que presidiu a instituição, como a produção de livros didáticos com abordagem antirracista; o tombamento do Bembé do Mercado, evento que ocorre em Santo Amaro da Purificação, sua cidade natal; e do Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, local de chegada de mais de 3 milhões de africanos escravizados ao país.
Erivaldo também destacou projetos culturais e educacionais realizados em diferentes regiões, com o objetivo de levar à população o conhecimento sobre a história da África, ainda pouco difundida no ensino formal – onde a maioria dos professores pouco conhecem, por culpa das grades curriculares do ensino superior que abordam minimamente este assunto.
Segundo ele, um dos principais desafios é garantir que o povo brasileiro conheça seus verdadeiros heróis e heroínas, em grande parte negros, que foram sistematicamente apagados pelo eurocentrismo (foco europeu) da história. Para Erivaldo, esse reconhecimento é fundamental para promover transformações sociais profundas.
“Eu não tive essas referências enquanto criança e quero que as crianças de hoje tenham. Que conheçam mais sobre a África do que a Europa, que sempre esteve nas páginas dos livros de história. Que estudem mais sobre o nosso povo. Esses heróis, como Teodoro Sampaio, os irmãos Rebouças, Dandara, não são lembrados e isso precisa mudar. Sem educação, não tem salvação”, enfatizou.
Ao aprofundar o debate, o professor ressaltou a importância de valorizar as matrizes africanas como parte central da formação educacional e cultural do país, combatendo mudanças históricas que deslegitimam esse conhecimento e sempre favoreceram aqueles que construíram o sistema social racista, desde a escravidão até a atualidade.
“A cultura iorubá é maior que qualquer mitologia grega. Esse reconhecimento africano já aparece no Enem, mas acaba restrito, muitas vezes, aos colégios particulares. Precisamos mudar isso, começando pela identificação. Jovens negros têm o direito de conhecer sua história, sua ancestralidade, a sabedoria do seu povo que lhe foi tomada. Para isso, é preciso oportunidade para que essa história seja contada”, pontuou.
Ao final da entrevista, Erivaldo defendeu que o trabalho de educação antirracista deve ser coletivo e descentralizado, respeitando e valorizando as tradições locais de cada território, seja na Amazônia, no Recôncavo Baiano ou no sul do país. Nesse contexto, ele elogiou a atuação de Amanda Garcia à frente do Instituto Educa+, destacando a importância de projetos participativos e inclusivos que unem educação, cultura e identidade como ferramentas de transformação social.
Sobre o programa
O CBN Educa+ segue como um espaço dedicado ao debate qualificado sobre educação pública, reunindo gestores, especialistas e educadores para discutir caminhos, desafios e experiências exitosas em diferentes regiões da Bahia.
O programa volta a exibido todas as quartas-feiras, às 15h, na Rádio CBN Salvador (107,9 FM), com transmissão simultânea nas plataformas digitais da emissora.