Dólar bate R$ 6,30 em sessão volátil, com pacote fiscal no Congresso e leilões do BC

O dólar apresenta leve queda nesta quinta-feira (19), com os investidores atentos à tramitação do pacote fiscal do governo no Congresso e repercutindo o novo leilão extra de US$ 3 bilhões realizado pelo BC (Banco Central).

Já no cenário internacional, o foco é decisão do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA) na véspera, quando optou por reduzir a taxa de juros do país para 4,25% a 4,5% ao ano.

Às 10h24, a moeda norte-americana caía 0,26%, cotada a R$ 6,253, em sessão marcada por alta volatilidade. Na máxima do dia, chegou a R$ 6,301.

Já a Bolsa subia 0,54%, aos 121.426 pontos.

Na quarta-feira (18), o dólar fechou a R$ 6,267, novo recorde nominal para a moeda norte-americana.

A disparada ocorreu em meio à tramitação do pacote de corte de gastos do governo no Congresso Nacional. A Câmara dos Deputados aprovou a primeira parte do projeto na terça, mas teve de adiar a votação das outras duas partes para essa quinta-feira.

Nos EUA, a decisão do banco central veio em linha com o esperado pelo mercado, mas as projeções de redução do ritmo de cortes, com menos reduções do que o previsto anteriormente para 2025, derrubaram Bolsas em todo o mundo e causaram um movimento de alta global do dólar.

Só em dezembro, a moeda americana acumula alta de 4,45% em relação ao real. No ano, registra valorização de 29%.

Ainda que o valor de R$ 6,267 seja recorde na base nominal —a que desconsidera a inflação do cálculo—, a maior cotação real foi atingida em setembro de 2002, na esteira da primeira eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Corrigido pela inflação, o valor do dólar naquela ocasião seria hoje o correspondente a R$ 8,81.

A conta, feito pela consultoria Elos Ayta, considera a cotação da Ptax —a taxa de câmbio calculada pelo BC (Banco Central)— e ajustes pela inflação brasileira (IPCA) e norte-americana (CPI) até novembro de 2024.

A Câmara concluiu na noite desta quarta a votação de um dos projetos do pacote de contenção de gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A proposta não contempla alguns dos pontos centrais do pacote, como o limite ao ganho real do salário mínimo e as mudanças no BPC (Benefício de Prestação Continuada), mas prevê outros dispositivos relevantes, como a possibilidade de bloquear até 15% das emendas parlamentares para cumprir os limites do arcabouço fiscal.

O resultado da votação foi a primeira sinalização concreta de que as medidas têm condições de avançar no Congresso Nacional. Mas, entre os agentes do mercado, ainda há preocupações de que o pacote possa não ser votado até o fim do ano ou que as propostas sejam desidratadas. Os parlamentares entram em recesso já nesta sexta-feira (20).

“Caso consigam aprovar tudo ainda em 2024, é possível que o mercado se tranquilize. Essa perspectiva apareceu na segunda metade do pregão de terça, quando, depois de uma manhã de muito estresse que levou o dólar até a R$ 6,20, os ânimos se acalmaram”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research.

Além do PLP, ainda está pendente de aprovação o projeto de lei ordinária que contempla o limite ao ganho real do salário mínimo, as mudanças no BPC (pago a idosos e pessoas de baixa renda) e a alteração na regra de cálculo dos repasses ao FCDF (Fundo Constitucional do Distrito Federal), entre outras medidas.

O pacote do ministro Fernando Haddad (Fazenda) ainda inclui uma PEC (proposta de emenda à Constituição) que mexe no critério de concessão do abono salarial (espécie de 14º salário pago a parte dos trabalhadores com carteira assinada) e busca extinguir de vez com os supersalários na administração pública.

Mas, mesmo que o pacote seja aprovado, a percepção do mercado é que ele ainda não é o suficiente para estancar a crise das contas públicas.

“O pacote é medíocre e insuficiente. O governo vai ter que apresentar medidas adicionais para tentar reancorar as expectativas que foram desancoradas por conta do próprio governo. Ele criou a situação atual com uma comunicação truncada na apresentação do pacote, e foi uma grande frustração. Caso aprovado, parte do problema será endereçado, mas ainda falta mais”, diz Spiess.

A pressão afetou a Bolsa, que desabou 3,14%, aos 120.772 pontos, e as curvas de juros futuros. O cenário externo também pesou após as projeções do Fed, e houve um movimento global de queda dos principais índices acionários do mundo. O S&P 500, que reúne as principais empresas dos EUA, caiu 2,96%.

O contrato para janeiro de 2026 subiu de 15,08%, do ajuste anterior, para 15,38%. O de janeiro de 2027 foi de 15,415% para 15,87%; e a de janeiro de 2029 avançava de 15,12% para 15,57%.

Haddad, em falas a jornalistas nesta quarta, não descartou a possibilidade de que movimentos especulativos estejam promovendo a alta recente do dólar, mas disse acreditar que as intervenções do Banco Central e do Tesouro devem ajudar a acalmar os ânimos.

Na especulação, investidores procuram lucrar com a volatilidade de preços de um ativo, muitas vezes no curtíssimo prazo. Há também decisões tomadas por “robôs” (operações automatizadas), que dão impulso à volatilidade já aumentada.

“Há contatos conosco falando em especulação, inclusive jornalistas respeitáveis falando disso. Eu prefiro trabalhar com os fundamentos, mostrando a consistência do que nós estamos fazendo em proveito do arcabouço fiscal para estabilizar isso”, afirmou.

O ministro também lembrou que houve outros episódios recentes em que o valor do dólar apresentou altas. “Já houve dias tensos que depois se acomodaram em virtude do desdobramento das medidas tomadas pelo governo.”

Haddad também falou sobre o pacote de ajuste fiscal em tramitação no Congresso Nacional. Para o ministro, não haverá desidratação do projeto.

Nesta quarta, o Banco Central anunciou que fará uma nova intervenção no câmbio na quinta-feira (19), com a realização de um leilão de dólares à vista no montante de até US$ 3 bilhões.

De acordo com a autoridade monetária, as propostas serão acolhidas entre 9h15 e 9h20.

Desde a última quinta (12), o BC já realizou sete leilões de dólares, no mercado à vista de forma surpresa ou com compromisso de recompra, injetando quase US$ 13 bilhões no mercado de câmbio. As intervenções, no entanto, não foram capazes de conter a disparada da divisa.

Já no exterior, os investidores repercutiam o corte de 0,25 ponto do Fed sobre a taxa de juros dos EUA, que veio exatamente em linha com as expectativas do mercado. Não foi uma escolha unânime: um dos diretores da autarquia votou pela manutenção da taxa.

O Fed ainda projeta que a taxa terminal de 2025 será de 4% —ou seja, que haverá apenas 0,50 ponto de redução.

“A decisão de reduzir as taxas hoje pelo Fed não constitui uma surpresa. Mas, à luz das revisões das projeções, sugere que se tratou de uma redução que veio para dar aos mercados um pouco de conforto, uma vez que a Fed prepara o terreno para uma abordagem mais agressiva da política em 2025”, diz Seema Shah, estrategista-chefe global da Principal Asset Management.

A sinalização fez a moeda disparar globalmente, com investidores precificando um dólar ainda mais forte no próximo ano em meio às possíveis políticas econômicas do presidente eleito Donald Trump.

“Deste ponto em diante, é apropriado avançar com cautela e buscar o progresso da inflação… a partir de agora, estamos em uma posição em que os riscos estão equilibrados”, disse o presidente do Fed, Jerome Powell, em entrevista a jornalistas após o final da reunião de política monetária de dois dias do banco central norte-americano.

Powell observou que o ritmo mais lento dos cortes projetados para o próximo ano refletia leituras de inflação mais altas em 2024.

O progresso mais lento da inflação, que não deve retornar à meta de 2% até 2027, se traduz em um ritmo mais lento de cortes nos custos de empréstimos e uma taxa terminal ligeiramente mais alta de 3,1%, também atingida em 2027, em comparação com a taxa terminal anterior de 2,9% estimada em setembro.

A taxa básica está agora 1 ponto percentual abaixo do pico atingido em setembro, quando as autoridades concluíram que a inflação estava voltando de forma confiável para a meta de 2% e que havia riscos para o mercado de trabalho de manter a política monetária muito apertada por muito tempo.

No entanto, desde então, as principais medidas de inflação têm oscilado, enquanto o desemprego baixo e contínuo e o crescimento econômico mais forte do que o esperado têm provocado debates entre os formuladores de política monetária sobre se a política monetária está tão apertada quanto se pensava —uma discussão que se reflete no aumento constante da estimativa de longo prazo da taxa neutra no último ano, de 2,5% para 3,0%.

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